Aos 16 anos, Cintia* (nome fictício) tem o sonho de fazer não só um, mas dois cursos de graduação: Biomedicina e Direito. “Quero trabalhar como delegada e acho que ser biomédica me ajudaria nessa profissão”, comenta. O desejo de se formar só não é maior do que o de voltar para casa. Ela é uma das adolescentes que cumpre medidas socioeducativas no Centro Aldaci Barbosa Mota, em Fortaleza, que recebeu, nesta terça-feira (31/03), visita do Projeto “Reviver com o MP”. A iniciativa, que busca desestimular a reiteração infracional deste público, foi levada ainda ao Centro Socioeducativo Antônio Bezerra, onde Ricardo* (nome fictício) também pôde participar da atividade. “Fiquei impressionado com a fala do doutor. Conversamos sobre ser um bom filho e sobre o futuro quando sairmos daqui”, disse.
Por meio de atividades artísticas e rodas de diálogo, meninos e meninas das duas instituições fizeram reflexões sobre escolhas pessoais e desenvolvimento humano. Aprender a se perdoar e pedir perdão também foram pontos abordados na conversa. “Ficamos naquela incerteza sobre como nossa família vai reagir [ao retornar para casa], então essa fala de acolhimento do Ministério Público foi muito importante”, diz Cintia. Os conselhos ouvidos por Ricardo também deixaram o adolescente de 16 anos esperançoso com o futuro. “Ver o promotor aqui, passando essa palavra de força, isso nos inspira a ser pessoas melhores”, revela o jovem.
Idealizador do projeto, Sérgio Louchard é promotor de Justiça da Infância e da Juventude há 23 anos. “Encaro não como trabalho, mas como missão”, resume ao destacar sua atuação na área. “Não estamos só cuidando do jovem, a perspectiva é muito maior, porque o adolescente de hoje é o adulto do amanhã”, acrescenta. Foi a partir dessa ideia que o “Reviver com o MP” surgiu. O projeto, desenvolvido em parceria com a Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas), promove um diálogo aberto e reflexões sobre o direito à liberdade, empatia e respeito ao próximo. “Queremos que esses jovens retornem ao convívio social e familiar com novos valores para que não voltem a cometer atos infracionais”, frisa.
A subprocuradora-geral de Justiça de Governança, promotora de Justiça Grecianny Cordeiro, avalia o Reviver com o MP como uma iniciativa transformadora. “Por meio da arte, a ação estimula o desenvolvimento de habilidades criativas, promove a expressão individual e fortalece caminhos para a ressocialização. Dessa forma, o projeto cria oportunidades para que esses jovens ressignifiquem suas trajetórias, ampliem perspectivas de futuro e reconstruam vínculos com a sociedade”, destacou.
A diretora do CS Antônio Bezerra, Noélia Gonçalves, acredita que o projeto do Ministério Público contribui para que os adolescentes que cumprem medidas socioeducativas possam ter contato com novas realidades, reduzindo a reiteração infracional. “Essa ressignificação que o projeto traz é inspiradora, já que permite aos participantes terem contato com outras visões de mundo e descobrir talentos que, muitas vezes, estavam escondidos”, ressalta.
Para o coordenador técnico do CS Aldaci Barbosa Mota, Ramon Anselmo, o projeto abre caminhos para fortalecer o processo de socioeducação, a partir de princípios como o direito à liberdade, esperança e amadurecimento. “Isso constrói aprendizados e possibilita encontros voltados à integração das adolescentes com a coletividade e a família”, salienta.