O Ministério Público do Ceará (MPCE), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), deflagrou, nesta terça-feira (30/06), a operação “Mensageiros do Crime”, com o apoio da Polícia Civil do Ceará (PCCE) e da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado (SAP). O objetivo é desarticular uma rede de comunicação estruturada que utilizava advogados para intermediar o contato e transmitir ordens de chefias de organizações criminosas presas para integrantes das facções, dentro e fora do estado do Ceará.
A operação busca cumprir, ao todo, 29 mandados de prisão e 29 mandados de busca e apreensão nos municípios cearenses de Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itaitinga, Maracanaú, São Gonçalo do Amarante, bem como em São Paulo. Foram cumpridos 17 mandados de prisão contra chefes de facção criminosa, dos quais 15 já estavam presos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Estado do Ceará (UP-Máxima), e outros dois estavam em liberdade. Mais 11 advogados foram presos e uma ainda é considerada foragida. Ela tem domicílio na capital paulista.
A ação solicitou o bloqueio de R$ 20 milhões das contas dos investigados. Um veículo Range Rover blindado foi apreendido com um dos chefes de facção preso. A operação também apreendeu celulares, notebooks e joias dos demais alvos.
Sobre a investigação
As apurações do MP do Ceará foram iniciadas a partir da decisão do Tribunal de Justiça do Estado, de novembro de 2025, que deferiu o pedido de captação de imagens e áudios nos parlatórios do presídio de segurança máxima do Estado. A análise do conteúdo revelou indícios de que determinados advogados, sob o aparente exercício da assistência jurídica, encontravam-se funcionalmente integrados à dinâmica operacional de organizações criminosas atuantes no estado.
As conversas registradas entre 08 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026 demonstraram um padrão reiterado de condutas criminosas entre custodiados recolhidos na Unidade de Segurança Máxima Estadual e os respectivos advogados, com uso de linguagem codificada para o tratamento de assuntos ilícitos. As comunicações consistiam em repasse de ordens e orientações a familiares, a outros custodiados e a integrantes de organizações criminosas em liberdade, com finalidades, como reorganização faccional, expansão territorial, transmissão de determinações internas, cooptação de integrantes, consolidação de novos alinhamentos criminosos, aquisição de armas de fogo, circulação de entorpecentes e articulações voltadas à manutenção das atividades ilícitas desempenhadas pelas facções.
Constatou-se que tais detentos, embora já custodiados e respondendo a processos ou cumprindo condenações pela prática de crimes relacionados à integração em organizações criminosas, continuam exercendo funções relevantes dentro das facções, configurando, em tese, novas condutas delitivas. O MP apurou, ainda, que os advogados faziam o repasse de informações, vulgarmente denominados como “pombos-correio” ou “advogados de recado”, em conduta que extrapola significativamente os limites do legítimo exercício profissional da advocacia e contribui para o fortalecimento das facções criminosas no Ceará.
Os diálogos coletados também demonstraram que a maioria dos advogados possui vínculos entre si, havendo constantes referências mútuas ao longo das conversas interceptadas, o que indica a existência de uma rede estruturada voltada a essa finalidade ilícita, e não de atuações isoladas ou visitas esporádicas. Além disso, verificou-se que esses profissionais costumam visitar os mesmos custodiados de forma reiterada, sendo que muitos apresentam elevado volume de atendimentos, em quantidade incompatível com o padrão ordinário de assistência jurídica, conforme dados extraídos do Sistema Integrado de Gestão Penitenciária (Sigepen), desenvolvido pela SAP.